Terça-feira, 17 de Março de 2009

"A minha alma está hoje aqui, em Portugal" - Testemunho de uma imigrante

 

Cheguei a Portugal no mês de Abril de 2000 logo depois de acabar a Universidade Politécnica de Timisoara Roménia, na Faculdade de Engenharia Electro Energética, curso acabado com uma Licenciatura de Engenharia de Energia Eléctrica depois de 5 anos de estudo universitário.
Fui-me embora do meu país de origem, a Roménia, com a perspectiva de uma vida melhor e com esperança de encontrar um país onde o facto de ser mulher não significava logo uma desvantagem, onde estava em pé de igualdade com os homens.
Em Junho de 2000, comecei a trabalhar em obras de construção civil como empregada de limpeza pesada, mas a maioria das vezes como servente numa equipa composta por mim, uma moldava e uma ucraniana. Para podermos comunicar, eu e a ucraniana, tivemos de aprender as duas a língua portuguesa. Aproveitava as horas de almoço, enquanto os outros estavam a descansar, para aprender a gramática da língua portuguesa. Em Fevereiro de 2001, fui promovida a empregada de limpeza nas vivendas de luxo nos Pinheiros Altos e tendo conseguido um bom contrato de trabalho legalizei-me na primeira onda de legalizações efectuadas em 2001.
Foi um período difícil da minha vida, com muitas humilhações, um tempo em que me senti explorada em troca de um ordenado irrisório mas não queria desistir de maneira nenhuma de sonhar que a minha vida ia melhorar num futuro não muito longe.
Tive a minha filha em Fevereiro de 2002 e depois dos 4 meses de baixa maternal, quando deveria regressar ao trabalho, o meu contrato não foi renovado, pois a empresa sentia-se prejudicada pelo meu direito de amamentar o que levava a que só trabalhasse cinco horas por dia. Enquanto desempregada, aproveitei para tirar o Primeiro e o Segundo nível de língua portuguesa como língua estrangeira, curso gratuito promovido pelo Instituto de Emprego e Formação Professional.
Em Março de 2003 comecei a trabalhar como Assistente Administrativa no Departamento de Contabilidade na empresa Crown International Services. Foi um teste que passei com brio.
Em Fevereiro de 2005, assinei a escritura do meu apartamento T2 em Almancil sendo a primeira romena a conseguir um empréstimo bancário sem fiador.
Em Setembro de 2006, entrei na Universidade do Algarve, Faculdade de Ciências e Tecnologia para conseguir através das equivalências por disciplinas a equivalência do meu curso universitário, mas desisti da Universidade para poder passar o pouco tempo livre que ainda tinha com a minha família e com a minha filha de cinco anos. Também não me agrada nada a ideia de perder o meu tempo com um curso que já tinha tirado e para qual tenho uma Licenciatura depois de 5 anos de estudo.
No dia 5 de Janeiro de 2007, assinámos a escritura da Doina Associação de Imigrantes Romenos e Moldavos do Algarve.
Decidi candidatar-me em 2007 e ganhei o concurso de EMPREENDEDOR IMIGRANTE DO ANO porque eu aprendi a ser feliz aqui, em Portugal, aprendi a amar a verdadeira amizade, aprendi a reencontrar-me na vida do dia-a-dia com optimismo e esperança, aprendi tudo isto e muito mais com os portugueses e é por isto que faço tudo para convencer que no fundo não existe nós e eles, existe só eu e os outros.
Porque não desisto quando é difícil e porque acho que a melhor conquista se obtém quando a luta é maior.
Porque não deixo de acreditar nos jovens e faço tudo para os ter ao meu lado em tudo o que realize.
Porque ensinei os portugueses a acreditar em nós, a confiar, a gostar de nós, e a nos amar. Choramos juntos nos dias de tristeza e celebramos todos nos dias de festa.
Porque se me perguntar onde é a minha casa não sei dizer, só sei que a minha alma está hoje aqui, em Portugal.

 


Elisabeta Ecaterina Necker
 

publicado por Ouvir para Integrar às 08:29
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1 comentário:
De Ana a 26 de Março de 2009 às 10:58
Parabéns!!

Fiquei muito emocionada ao ler o seu post! Nunca emigrei, apenas migrei de uma pequena aldeia para a grande cidade.

O meu pai foi emigrante nos anos 60/70 e não foi fácil.

Nós portugueses somos um povo de emigrantes e muitas vezes me irrito com comentários pouco favoráveis sobre emigrantes e emigração.

Espero que a sua alma continue portuguesa e acredite que há muitos portugueses que se revoltam com as injustiças praticadas contra os emigrantes mas muitos tb são justos e orgulhosos dos seus emigrantes.

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