Sexta-feira, 27 de Março de 2009

Sentir-se Português em Goa

Não é por acaso que nos definimos como povo pelo traço característico da saudade. E talvez a maior parte de nós não possamos defini-la em toda a sua significância e em todas as cambiantes do sentido que encerra. Ou, como escreveu José Augusto Seabra, citando Santo Agostinho, talvez a saudade seja um desses símbolos chave que cristalizam, em momentos críticos, as aspirações ainda indefinidas dos que não se resignam à fatalidade do pior, nem fecham os olhos diante do abismo, mas buscam, mesmo tacteando, algumas clareiras no presente e no futuro. A saudade pode ser, assim, a cristalização do carácter profundo dum povo.


Prefiro-a assim, abrangente, de contornos indefinidos, para cobrir toda aquela nostalgia dum português pensante, nostalgia que é de um passado ou de um futuro, de todo o tempo e de tempo nenhum, sentimento de alegria e de doce prazer às vezes, delicioso pungir de acerbo espinho noutras, como escreveu Garrett, ou até sentimento de perda e desejo de reencontro com o paraíso perdido ou com Deus, como sentiu Teixeira de Pascoais.

Escrevo esta pequena crónica numa noite de lua cheia que se reflecte sobre as águas calmas do rio Mandovi, em Goa, mais propriamente em Pangim. É que daqui, da varanda fechada do velho Hotel que do rio tomou o nome, onde ainda se fala português com um senhor chamado Camotim, forçado a chamar-se agora mister Kamot, faz-se rapidamente a viagem de regresso ao passado, imaginam-se facilmente as caravelas subindo o rio, ouvem-se ainda os canhões de Albuquerque e sucessores, adivinha-se a epopeia da fixação dum povo vindo do outro lado do mundo para se enquistar aqui, nesta terra de monções e maleitas, quente e húmida, que representava então o futuro do comércio das especiarias.


Passamos pelas ruas escalavradas de passeios altos, levantamos os olhos e reconhecemos as varandas coloniais portuguesas, os telhados de telha de quatro águas, a volumetria das repartições da administração colonial, os nomes importados que aqui criaram raízes e prosperaram ao longo de mais de quatro séculos. E assola-nos então o tal sentimento indefinido a que chamamos saudade: adivinhamos vidas aqui cumpridas, recordamos nas lápides tumulares portugueses sepultados na terra que amaram e fizeram sua, damos conta da miscigenação que se desenvolveu e fez da gente deste hoje minúsculo estado da imensa Índia um povo à parte - um goês é um goês antes de ser indiano - diz-nos o condutor que nos conduz até à praia de Miramar.

 

É um sentimento estranho, porque vem sempre acompanhado duma nostalgia de epopeias e da frustração dum presente onde mal se pode descortinar um futuro. Já não somos um povo de epopeias, reduzidas que foram estas a umas migrações por essa Europa fora no tradicional desenrascanço de ganhar a vida, e muito menos de quinto império, já que outros nos tomaram esse tipo de megalomanias, e se a única epopeia em que se tornou o duro viver do dia-a-dia pode ainda autorizar-nos a sonhar com um futuro colectivo, esse futuro não poderá desenhar se senão no espaço geográfico alargado em que hoje compartilhamos alegrias e depressões, sucessos e crises.

 

Nem por isso devemos sentir-nos menores: as marcas da nossa presença traduzem as realizações de sonhos de um povo que sonha e sempre sonhou com o bem-estar muito mais longe da sua porta. Se o acordar do sonho é por vezes penoso, que nos fique dele ao menos uma imagem devolvida pelo espelho da História: talvez não fôssemos melhores nem piores que outros, mas fomos seguramente diferentes. Essa diferença marcar-nos-á certamente também no futuro. Cabe a cada um de nós defini-lo e caracterizá-lo.

Das marcas deixadas, impressionam os monumentos religiosos que caracterizam as nossas descobertas. As monumentais igrejas ou as modestas capelas, donde se destacam naturalmente a igreja do Bom Jesus e a Catedral de Goa. Em construções muito mais modestas que as precederam, ficou patente o cunho da religiosidade dos nossos navegantes, atestado pelas capelas de Santa Catarina e de Nossa Senhora do Monte, mandadas construir por Afonso de Albuquerque. Mas também as edificações militares atestam a nossa presença, sendo de destacar, pela sua dimensão e posição defensiva, o forte da Aguada.


Nestas marcas, como nos nomes ou nas memórias dos que nos reconhecem, temos necessariamente de nos sentir parte duma herança secular, e talvez seja nestas paragens, longe das quezílias de paróquia do nosso viver presente, que encontramos a certeza da nossa identidade colectiva.


Fernando Gouveia
 

publicado por Ouvir para Integrar às 10:51
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