Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

São Europeus? São Africanos? Não sei...

 

    

 

Eu, Marie Sene, senegalesa de 31 anos, cheguei a Portugal em 2001 através de uma bolsa de estudo do «Instituto Camões». Tirei o Curso de Língua e Cultura Portuguesa na Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar. Ao fim de 4 anos de estudos universitários nesta área, tirei a Licenciatura em 1999.Depois de conseguir a primeira parte do Mestrado fui seleccionada entre os 5 melhores alunos da minha turma para aperfeiçoar a língua portuguesa na universidade Clássica de Lisboa.


Quando cheguei, não tive grandes dificuldades de integração, porque já falava e escrevia o português, com pouca experiência claro, porque o Senegal era uma colónia Francesa. Naquela altura, a minha vontade era tirar o curso, acabar de escrever a minha tese para completar o mestrado a fim de conseguir um bom emprego na minha terra ao pé da minha família, mas o destino não quis assim.


Todos os meus planos foram abaixo quando ao fim de nove meses conheci o amor da minha vida: o Abdul, que também veio para Portugal nas mesmas circunstâncias do que eu. Ele já estava a trabalhar cá e gostava do seu emprego. Então, como eu gostava dele, tinha que escolher: ou casar ou voltar para a terra.


Mas pensei, pensei, voltei a pensar e acabei por ceder, porque uma mulher africana, particularmente senegalesa, só se identifica ao casar. A uma certa idade, a mulher tem que casar. Então, em 2003, casámos e fiquei logo grávida da minha filha Aminata que já tem cinco anos.


Da gravidez até aos dois anos de vida dela, passámos grandes dificuldades financeiras, porque só o vencimento do meu marido não chegava para nada. Naquela altura, a instituição da «Ajuda de Mãe» apoiou bastante tanto no plano psicológico como social. Assim foi, até eu começar a trabalhar na A.M.I (Assistência Médica Internacional) em 2005.


Em 2007, nasceu o nosso 2º filho «Pape Boubou». Isto significa que continuamos na luta sem nunca desistir para criar dois filhos, o que é uma tarefa muito difícil. Difícil no plano financeiro mas também no plano educativo e cultural.


Agora estamos confrontados com um problema cultural muito sério, que é a língua. Qual é a língua de comunicação entre os meu pais e os meus filhos? O meu pai chora, a minha mãe chora por não conseguir comunicar com os netos. Mas nesse sentido, estamos a fazer o nosso possível e a minha filha já fala basicamente o nosso dialecto. Sou muito conservadora, e uma coisa é certa, África é muito pobre, mas com grandes valores morais e culturais. Eis porque tenho um grande receio. Temo que os meus filhos cresçam sem identificação própria.
São Europeus? São Africanos? Não sei. A única coisa que eu sei é que eles têm o sangue africano e com o decorrer do tempo vão adoptando a cultura europeia.


 

Marie Sene

Imigrante Senegalesa em Portugal

publicado por Ouvir para Integrar às 12:45
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3 comentários:
De paula a 10 de Abril de 2009 às 23:30
Os seus filhos, Marie, já nasceram com identidade própria. Se são africanos ou europeus é de menor importância, se têm as duas culturas, melhor para eles, serão por isso mais ricos. O idioma, eles aprendem facilmente, os dois, e a linguagem dos avós é sempre a dos afectos, universal! Preserve a sua identidade e transmita os seus valores e cultura aos seus filhos.
De marie sene a 16 de Abril de 2009 às 22:17
Muito obrigada pelos conselhos
De Anónimo a 16 de Abril de 2009 às 17:33
Marie Sene, tens sido uma excelente mãe e tens tentado integrar os teus filhos em ambas as culturas como é natural. Não há que preocupar, pois tenho certeza que os valores que lhes transmites serão os mais adequados, sejam eles de nível cultural e/ou de nível emocional.
Parabéns pela tua forte capacidade de adaptação!
Um beijinho
Cátia

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