Sábado, 16 de Maio de 2009

Um País de encruzilhada de culturas e raças (texto traduzido)

 

 

Actualmente somos confrontados com o desafio da diferença. É uma aposta que urge aceitar, porque não tem retorno, sob pena de nos excluirmos da história. Exige uma revolução “copernicana” cultural e social, para superar os erros do passado. É uma transformação que impõe a “centralidade da pessoa”, na sua singularidade e irrepetibilidade, ao nível da vida cósmica e da vida do planeta –situação semelhante para as culturas e raças.


Conceber um conceito de centralidade policêntrica, como espaço simbólico da humanidade, é a tentativa de colocar um “centro” coabitado, em cada lugar, pelo Homem e pela sua comunidade, fundado numa “ universalidade situada” e concreta, onde se falam várias vozes e que exige, consequentemente, um metamorfose antropológica – o centro, para existir cria, necessariamente, a periferia, como o espaço de vida “inferior” e do subordinado; ao contrário, “os centros”, anulam a idéia da periferia, porque vivem na pluralidade, na presença do Outro, do múltiplo, dando uma consistência diferente à nossa verdade.


O lugar da centralidade policentrica do universalismo da diferença é o centro de uma mestiçagem, o espaço da contaminação das culturas, raças, indivíduos, ideias. A mestiçagem é uma ordem mental, espiritual, indiferente à cor da pele, à raça, que gera um mundo dialogico da liberdade e da compreensão mútua, onde todos tem o direito à sua intrínseca forma de estar (e não a cópia de uma outra), pelo direiro em exibir uma autonomia, possuir a identidade “novellistic” como a “síntese do heterogéneo”, como refere Paul Ricoeur.


Este movimento contém resistências originadas pela leitura do mundo, construídas pelas memórias, vivências e experiências individuais mas ancorada em aspectos da memória do grupo social onde o indivíduo foi socializado. Essa História e memória oficial da sociedade estabelecem e expressam uma versão acordada e consolidada do passado, filtrada e interpretada por interesses e ideologias dominantes (em cada época), com os seus valores, mitos, arquétipos, uniformizadora de lembranças. No nosso caso, uma História construída e protagonizada por uma ocidentalidade que interpretou e registou memórias que urge hoje revisitar, pela impossibilidade de conhecer os Outros (e Nós), mantendo centros, periferias e silêncios! Assim, é importante impulsionar este movimento a fim de nos aproximarmos e conhecer o Outro, de recebê-lo com uma linguistica e uma hospitalidade novellistic, como a troca das memórias. Este movimento de aproximação e conhecimento do Outro não conduz à rejeição da nossa História, antes propõe o seu enriquecimento. O que se pretende é dar entrada a outras Histórias, repensar outros dados, na urgência de uma visão mais holística da História onde sejam costuradas memórias emergentes, não monumentalizadas, integrados os significados e sentidos do Outro e valorizados os mitos, os sonhos, os desejos como factores fundamentais dos seus percursos e marca das suas identidades.


Cabe aqui reflectir sobre a nossa identidade edificada por um encontro de culturas, entrelaçada por relatos de outros universos culturais, construída com o Outro, fluida e orientada eticamente.
Pelas razões expostas, o lugar da centralidade policentrica do universalismo da diferença encontra-se na “cidade-mundo”. Em Portugal existem muitas “cidade-mundo” - Lisboa, Coimbra, Évora, Porto, entre outras - cidades que conservam, ainda, as características da civilização romana e, também, a influência de muitas outras culturas, que construiram o ethos barroco.


O conceito da “cidade-mundo”, como expõe o filósofo italiano Mario Perniola, nasce com a civilização romana, da qual o país de Lusitano é rico em histórias e memórias.
Roma era uma cidade (urbs) sem uma verdadeira origem, mas apenas um início, onde todos eram estrangeiros, a começar pelo seu fundador, Rómulo, com origem na Longa Alba, Tito Tazio e Numa Pompilio com origem em Sabina, mesmo Enea, protótipo da stirpe romana, com sangue grego. Todos em Roma vinham de outro lugar, até as divindades eram de locais e tempos diversos, sendo a cidade o lugar de acolhimento de “várias pátrias”.


O pantheon Romano, enquanto templo de todos os Deuses era, de facto, o local de convergência de todos os que habitavam os vários territórios do império, expressando e simbolizando a diversidade das culturas ali reunidas. Roma, consequentemente, não fazia sentir aos seus habitantes, que eram estrangeiros, desconhecidos, marginais mas, sim, cidadãos de pleno direito. Cidadãos de uma “cidade-mundo”, onde todos, sem distinção da raça, religião e cultura, podiam viver na plenitude o direito da sua existência, porque civitas Roman é o sincretismo de todas os manifestacões espirituais do império.


Para Perniola as características da civilização romana das “cidade-mundo” são reencontradas na cultura barroca, muito presente em Portugal, no século XVIII. O barroco é também o espaço colonial que se aproxima do Outro e põe em contacto diversas culturas. É o repto de uma racionalidade mestiça. O móbil dos Jesuitas que são filoumanistas na Europa, mas, também, do filoconfucianismo na China, do filoinduismo na India, porque portadores de um pensamento da diferença, que educa no respeito das outras culturas, sem medo das miscigenação, ciente que a mestiçagem é a fundação do mundo.


À força destas considerações interrogamo-nos sobre a possibilidade de concretizar uma outra experiência do mundo - Portugal foi romano, resistiu às invasões bárbaras, foi árabe e europeu, emergindo nas suas cidades vários estilos: românico, gótico, manuelino, renascentista, barroco, etc. Conseqüentemente o país de Lusitania é o espaço privilegiado para o retorno das“cidade-mundo”, enquanto espaço simbólico da diversidade da humanidade, onde todas as culturas, superam colonialismos e imperialismos, re-entram no palco cénico da história e fazem ouvir a sua voz.

 

António Vallleriani, Grupo Multiversum, Teramo, Italia


Luisa Janeirinho, socióloga, museóloga, Lisboa, Portugal

 

publicado por Ouvir para Integrar às 19:51
link do post | comentar | favorito
AMI - 25 Anos
Por uma Acção Humanitária Global

Sobre o Blogue

Este não é o blogue da AMI. É o blogue da Fatu, do Orlando, da Antónia, do Abdulai, da Rita, do Paulo, do Henrique, do Philip, da Maria, da Diana, da Fátima, e de todos os que participam no trabalho desenvolvido pela AMI, dando o seu contributo para a construção de um futuro diferente, melhor e mais justo. São voluntários, trabalhadores locais, funcionários, Amigos, que contribuem e acreditam neste sonho que se mantém há 25 anos… É deles este blogue, porque a AMI é feita de pessoas, de acções e de histórias. E se acredita que um mundo melhor é possível, este blogue também é seu…

Frase da Semana

“Somos todos uma nação, e não podemos resolver problemas se não nos virmos assim: uma nação com muitas culturas. Quando começarmos a pensar dessa forma, entramos no que chamo o verdadeiro princípio da história.”
Amin Maalouf

FOTO DA SEMANA



Actuação do Grupo Finka-Pé (Associação Moinho da Juventude) no Fórum Internacional "Encontro de Culturas - Ouvir para Integrar"
Autor: Isabel Nobre

pesquisar

Agosto 2009

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

posts recentes

A AMI financia de emergên...

AMI - Exemplo de boas prá...

Imigração: Esforço para i...

AGENDA

REVISTA DE IMPRENSA

Ouvir para Integrar

ANIMAÇÕES CULTURAIS MAIS ...

RESULTADO DO CONCURSO DE ...

Um País de encruzilhada d...

GOSTARIA DE CONHECER MELH...

arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

links

subscrever feeds