Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Ouvir para Integrar

Foi-me perguntado em 2002, era eu voluntária da AMI no Centro Porta Amiga das Olaias desde 1996, se poderia dar algum apoio a dois filhos de um casal russo que viriam frequentar a escola em Portugal. Aceitei dar alguma ajuda na integração na cultura e sociedade portuguesas. 

 

Encontrei-me primeiro com a Ludmila (17 anos) e daí a um mês também com o Sergey, o irmão de 14 anos. Dos museus, jardim zoológico, oceanário, etc., passámos a lições de Português em minha casa, frequentes, longas aulas com lanche e conversa pelo meio. Frequentaram também os cursos pós-laborais de Língua Portuguesa do Estado, mas eram insuficientes para a sua situação escolar – ele no 9º ano e ela no 12º. Não sabia ainda a Ludmila um mínimo de vocabulário e gramática para construir duas frases completas e correctas em português e viu-se confrontada na escola com aulas e fichas completas sobre Fernando Pessoa e seus heterónimos…

 

O que foram seis anos e meio da minha relação com a família Zaitsev, muito em especial com a Ludmila e o Sergey, não pode caber no formato de um blogue. Levaria horas ou dias o relato. Não foi fácil gerir os afectos, a supremacia parental, o funcionamento das estruturas escolares portuguesas, a liberdade individual, o desejo de não-dependência e a necessidade de ajuda, etc… Dei a estes adolescentes que, do outro extremo da Europa vieram até aqui, todas as formas de ajuda escolar e extra-escolar que me pareceu ser possível dar e tenho vivido com eles variadíssimos episódios das suas jovens vidas, na medida em que nos quiseram transmitir. Tenho também recebido da família vários sinais de atenção e gentileza. Estes anos têm sido, pelo menos para mim, uma experiência muito, muito intensa, muito marcante e muito bonita (também às vezes muito cansativa). Eles revelaram-me um mundo diferente nalguns aspectos. Aprendi com eles muitas coisas, curiosamente até sobre Lisboa. Tentei confirmá-los nos sólidos valores cívicos e éticos que traziam. Surpreendi-me com o respeito quase religioso que, no início, tinham pelo pão (“é o trabalho dos nossos pais”) e também o respeito pelos livros e pela escola.

 

Eram bonitos, bem-educados e bem formados. Tinham um desenvolvido espírito prático e enorme capacidade de improvisação. Admirei a sua habilidade manual, os seus hábitos de disciplina, a sua adaptabilidade ao diferente, o seu precoce sentido da medida, o seu à vontade, natural e discreto, em qualquer ambiente social, e apreciei sobretudo a sua qualidade humana. Vi como é possível estar, em situação de desvantagem linguística, económica, habitacional, social, etc., de fronte erguida e com toda a dignidade. Não se mostravam deslumbrados com coisa alguma nem penalizados pelo local e casa onde viviam, nem pelo dinheiro que não tinham.

 

Parecia-me no entanto que tinham demasiada contenção na expressão dos seus sentimentos Tinham sido educados assim. Mais tarde vim a constatar, na prática, como essa contenção ocultava uma muito delicada e muito profunda sensibilidade. Dei-lhes lições em algumas disciplinas (que tive de estudar ou re-estudar) e arranjei-lhes algumas explicações para disciplinas para as quais eu não estava minimamente preparada (fora apenas professora de Inglês e Alemão). O pai Zaitsev, engenheiro, conseguiu um lugar numa empresa. Não é um lugar nem um ordenado de engenheiro, mas tem sido estável e trabalha com máquinas, o que lhe agrada muitíssimo. A mãe, que tem o que suponho ser um curso superior médio de economista, só encontrou trabalho doméstico de limpezas.

 

Agora comprou uma máquina de costura e, além do trabalho fora de casa e da cozinha e da lida doméstica, faz também trabalhos de costura. Levanta-se à cinco e meia da manhã. Teve uma vida dificílima na Rússia com muito trabalho, mas sempre um sorriso que a todos anima. Os pais costumam ir à sua terra no Verão no seu mês de férias, como os nossos emigrantes vêm a Portugal.

 

E agora estamos em Maio de 2009. A vida, portuguesa ou russa não é fácil, nem simples nem linear. Tem havido alegrias e preocupações. Muitas coisas mudaram e outras estão a mudar. A Ludmila e o Sergey frequentam o Ensino Superior, mas ela teve uma depressão e precisou de suspender os estudos por um ano. Está, felizmente, muito melhor e retomou os estudos, mas tem agora, além das cadeiras deste ano, cadeiras atrasadas do ano em que adoeceu. Ao Sergey não correram bem os exames do primeiro semestre, sente a cabeça cansada e vai procurar ajuda médica. A residência universitária em que está alojado este ano tem sido um proveitoso e agradável elemento integrador. Não vem a Lisboa todas as semanas. A Ludmila, além da universidade, tem, suponho, um possível namoro e, porque desde há anos decidiu não sobrecarregar financeiramente os pais, tem também um part-time. Estão ambos muito ocupados e não sei se alguma vez voltarão a ter lições comigo (bem precisariam de lições de Inglês). Mantemos no entanto contacto. E sabem que podem sempre contar com a minha grande amizade. Estou preocupada com a saúde e com o estudo de ambos. Esperemos que tudo melhore brevemente.

 

E o que quero sobretudo dizer é isto – não se trata aqui de voluntariado. A Ludmila e o Sergey são para mim como “afilhados do coração”. São vida enxertada na minha vida.

 

Natália Hasse Fernandes

 

Nota: com excepção do meu nome, que é o verdadeiro, os nomes acima referidos são fictícios. Achei que estas pessoas têm direito à sua total privacidade.
 

publicado por Ouvir para Integrar às 12:06
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Este não é o blogue da AMI. É o blogue da Fatu, do Orlando, da Antónia, do Abdulai, da Rita, do Paulo, do Henrique, do Philip, da Maria, da Diana, da Fátima, e de todos os que participam no trabalho desenvolvido pela AMI, dando o seu contributo para a construção de um futuro diferente, melhor e mais justo. São voluntários, trabalhadores locais, funcionários, Amigos, que contribuem e acreditam neste sonho que se mantém há 25 anos… É deles este blogue, porque a AMI é feita de pessoas, de acções e de histórias. E se acredita que um mundo melhor é possível, este blogue também é seu…

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